A História do Dinheiro
Entenda a evolução do dinheiro através dos tempos. Da seleção natural do ouro, passando pelas reservas fracionárias e padrão-ouro, até o surgimento do Bitcoin.

Os sistemas de escrita e os registros de dívidas datam de pelo menos 5 mil anos. O dinheiro, enquanto moeda cunhada, tem aproximadamente 2,5 mil anos de história registrada. Na cronologia das grandes criações do Homo sapiens, apenas a domesticação de animais e a agricultura são invenções mais antigas do que o dinheiro.
Durante esses 5 mil anos, o dinheiro assumiu as mais diversas formas: de metais brilhantes, conchas, grãos, sal, dentes, peles e tecidos até o papel-moeda colorido com o rosto de alguma autoridade de turno e, mais recentemente, os bits digitais.

O ponto mais importante é que o dinheiro é uma metáfora. Ninguém quer dinheiro. As pessoas querem o que o dinheiro compra: carros, casas, status, paz de espírito, saúde. Várias outras coisas, cujo significado é transferido ao portador do dinheiro.
Durante os últimos séculos, diversas coisas foram usadas como dinheiro. Algumas coisas foram usadas por séculos e são usadas até hoje. Outras foram completamente abandonadas. Algumas coisas, como as criptomoedas, estão sendo usadas pela primeira vez como dinheiro. E diferentes gerações convivem com diferentes tipos de dinheiro ao mesmo tempo.
Os grãos por exemplo, eles sempre foram e sempre serão usados meio de troca. Mesmo hoje, os agricultores modernos, com máquinas agrícolas de valem milhões, continuam usando os grãos como medida de valor e unidade de troca para empréstimos, financiamento e compras de insumos ou terras. Mas se você tentar comprar um pacote de macarrão no mercado com um saco de grãos, não vai dar certo porque os grãos não exercem todas as funções de forma satisfatória.
As Funções do Dinheiro
Para que qualquer objeto ou tecnologia possa ser considerado um bom dinheiro, ele precisa desempenhar três funções básicas: reserva de valor, meio de troca e unidade de conta.
Reserva de Valor: um bom dinheiro precisa ser capaz de guardar valor com o tempo para que as pessoas possam poupar e acumular riqueza ao passar dos anos.
Meio de Troca: a função mais básica do dinheiro é funcionar como meio através do qual diversos itens podem ser trocados.
Unidade de Conta: um bom dinheiro funciona como medida comum de valor, de forma que você possa mensurar diversos bens e serviços de forma padronizada. O dinheiro deve funcionar como uma régua financeira comum para medir e comparar valores.
As propriedades ''inatas'' de cada coisa que representa o dinheiro definirá quão bem aquela coisa exercerá suas funções básicas. Quão mais durável, portátil, aceito e divisível, melhor será o desempenho das funções do dinheiro.
Os grãos por exemplo, não são uma boa reserva de valor e ele só funciona como unidade de conta para agricultores. In natura ele não é durável, não é fácil de levar e só é aceito no mundo da agricultura. Mas é altamente divisível.
História do Dinheiro: dos Grãos à Primeira Moeda Fiduciária
Os Grãos
A história do uso de grãos como sistema de dinheiro talvez seja tão antiga quanto a própria humanidade e ao mesmo é extremamente atual. De impérios que não existem mais até os agricultores modernos, os grãos têm sido uma constante como unidade de conta economia.
Durante o Império Asteca, entre 1300 e 1521, as sementes de cacau desempenhavam um papel central na economia. Aqui estão alguns pontos-chave sobre o uso dos grãos de cacau:
Equalizador de Valor e Arredondamento de Trocas: As sementes de cacau eram usadas para facilitar a troca de mercadorias, atuando como um equalizador de valor e arredondamento da troca para equilibrar trocas não exatas entre produtos como alimentos, joias, pedras preciosas e itens manufaturados.
Quachtli para Grandes Transferências: Além dos grãos de cacau, o quachtli, uma espécie de capa de vestir feita de algodão, era usada para grandes transferências financeiras. O quachtli era particularmente útil quando seriam necessários muitos grãos de cacau para realizar uma transação, oferecendo uma alternativa prática e de maior valor.
Mesmo na era moderna, os grãos continuam a ser uma unidade de troca valiosa. Hoje, agricultores com máquinas agrícolas que valem milhões ainda usam grãos como medida de valor. Os grãos são utilizados para empréstimos, financiamentos e compras de insumos ou terras, demonstrando a durabilidade deste sistema de troca.
🧠 Curiosidade: O Mercado Ilegal do Cacau
Como qualquer forma de dinheiro que ganha relevância, o cacau também teve seu mercado ilegal e problemas de falsificação:
Criminosos enchiam os grãos de cacau com lama, selavam a casca e misturavam os grãos falsos com os reais.
Este mercado ilegal demonstra como qualquer forma de moeda pode ser suscetível à fraude, independentemente da era ou da tecnologia disponível.
Problema dos grãos:
Durante toda história, diversos tipos de grãos foram usados. Mas todos eles tem os mesmos problemas: são altamente perecíveis e extremamente difíceis de carregar. Hoje é inclusive é ilegal viajar com sementes entre países. Ou seja, apesar de sempre ter sido usado como dinheiro, os grãos não cumprem as funções do dinheiro de forma tão efetiva.
Metais
Os metais representam o primeiro grande salto de abstração do dinheiro. Enquanto o dinheiro-commodity possui um valor de uso direto e evidente (você pode comer o cacau, vestir o algodão ou usar o sal para conservar alimentos), os metais preciosos exigem que a sociedade concorde com um valor não utilitário.
As tábuas de argila da Mesopotâmia com inscrições cuneiformes, datadas de 2500 a.C., já registravam o uso da prata pesada como forma de liquidação de transações.
No Antigo Testamento, a maioria das negociações é expressa na unidade de peso conhecida como siclo (em hebraico shekel, derivado do verbo shakál, que significa "pesar" ou "pagar").
📖 A Venda de Jesus: O relato bíblico de que Judas vendeu Jesus por "30 moedas de prata" (Mateus 26:15) refere-se, segundo historiadores, a tetradracmas de Tiro (cerca de 14 gramas de prata cada) ou estáteres de Antioquia (15 gramas de prata cada). Ao peso da prata atual, a transação equivaleria a uma fração modesta de valor, demonstrando como o poder de compra dos metais oscila ao longo dos milênios.
Diferente do ferro, do bronze ou do cobre, o ouro e a prata possuíam pouquíssima utilidade prática para a sobrevivência diária na Antiguidade. No entanto, eles se impuseram como dinheiro global por apresentarem propriedades físicas e químicas superiores às dos grãos:
São imunes ao apodrecimento (durabilidade física).
Não podem ser consumidos por pragas ou animais.
São escassos na crosta terrestre, impedindo que a oferta seja inflada rapidamente.
Concentram muito valor em pouco volume (portabilidade).
Problema dos Metais:
Mas, falsificar uma pedra de ouro é muito mais fácil do que falsificar uma vaca. Se eu te entregar uma barra de ouro ou uma barra banhada a ouro, você provavelmente não vai saber a diferença e dificilmente saberá dizer exatamente quantos gramas ou quilos eu estou te entregando.
Para realizar as trocas com ouro ou prata, os comerciantes precisavam de balanças e sistemas de comparação de peso com pedras e diversos materiais. Era mais eficiente do que a troca com grãos, mas ainda assim, era lento e restrito aqueles que tinham os artefatos necessários para as medições
A Primeira Moeda Fiduciária
O reino da Lídia (região mais ocidental da moderna Turquia) é conhecido por criar a primeira moeda oficial do mundo. O Estáter Lídio é o ancestral direto do sistema de moedas estatais que usamos até hoje.
Em 630 a.C, a Lídia começou acumular riqueza com a fabricação dos melhores perfumes e cosméticos do mundo. Com seu ímpeto comerciante e desejo de expansão do seu comércio, a Lídia precisou encontrar formas mais eficientes de realizar suas trocas econômicas.
Para resolver o problema da falsificação, os metais passaram a ser carimbados com o emblema real do reino da Lídia. Esse carimbo atestava a confiança no peso e pureza da peça de metal para aumentar a eficiência e a simplicidade das trocas.
Dessa forma, não seria mais necessário pesar e testar cada peça a cada troca. Os mercadores conseguiram assim deixar de lado as balanças e pesos para acelerar as transações. É como a primeira solução de escalabilidade dos sistemas de dinheiro ''tradicionais''. O Stater Lídio ajudou o país a expandir o comércio e tornou a Lídia um dos impérios mais ricos da Ásia naquele momento.

Estáter
A Lídia também se atribui os primeiros mercados varejistas centrais, onde qualquer pessoa poderia vender suas mercadorias. Indícios arqueológicos também atribuem aos lídios, a criação dos jogos de azar e das primeiras feiras livres de rua.
Em pouco tempo, os vizinhos da Lídia, os Gregos e os Romanos, adotaram as práticas de cunhagem de moedas, que se espalhou por toda a Ásia e Europa.
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Inflação & Queda de Roma
O nascimento do Império Romano é um dos eventos mais significativos da história ocidental. A fundação de Roma, datada tradicionalmente de 753 a.C., marca o início de uma pequena cidade-estado que, através de guerras, alianças e conquistas, se expandiria para se tornar um dos maiores impérios do mundo antigo.
No início, Roma era uma monarquia governada por reis, mas em 509 a.C., os romanos derrubaram seu último rei, Tarquínio, o Soberbo, após um período de insatisfação com sua tirania e abuso de poder. Esta revolta levou à formação da República, um novo sistema político baseado em um equilíbrio de poder entre diferentes instituições.
A República Romana se destacou por sua estrutura complexa que permitia um grau significativo de participação cidadã, especialmente para a classe dos plebeus. Conflitos entre os patrícios (a classe aristocrática) e os plebeus (os cidadãos comuns) levaram a várias reformas importantes, incluindo a criação dos Tribunos da Plebe, que tinham o poder de vetar decisões do Senado que fossem prejudiciais aos plebeus.
A transição da República para o Império ocorreu durante o século I a.C., marcado por instabilidades políticas e guerras civis, envolvendo figuras históricas como Júlio César, Pompeu e Marco Antônio. O sistema republicano foi gradualmente substituído por um governo centralizado sob a autoridade do imperador. A expansão territorial continuou, trazendo vastos territórios sob controle romano, desde a Europa Ocidental até o Oriente Médio e o Norte da África.
No final do século I a.C., uma série de guerras civis ocorreu entre líderes militares. À medida que Roma crescia, também cresciam os luxos dos grandes reis e os custos para conquistar novos territórios e manter um imenso exército e corpo burocrata. Cada vez mais, Roma começou a importar mercadorias da Ásia, pagando em ouro ou prata. Mesmo quando o Império Romano não conseguia mais grandes ganhos com as invasões, o exercício e os funcionários assalariados do governo aumentaram.
Falsificação das Moedas
Em 64 d.C, em uma tentativa de enganar a população e aumentar a riqueza do Império, Nero diminuiu o teor de prata na moeda denarius - de onde surgiu nossa palavra para dinheiro - de 100% para 90%, cunhando-as usando menos prata. Com essa estratégia, Nero conseguiu produzir um excedente momentâneo de metal no caixa do Império.
A estratégia foi adotada por todos os outros imperadores que se seguiram. Quando o imperador Septímio Severo (193 a 211 d.C) precisou aumentar o pagamento dos soldados, ele reduziu o teor de prata do denário para menos de 50%. À medida que o teor de prata reduzia e as estratégias militares não tinham o resultado esperado, o preço das mercadorias aumentava em proporção direta.


O império romano entrou em declínio aumentando exponencialmente os impostos dos comerciantes e agricultores romanos, enquanto drenava todo dinheiro para bancar gastos de expansão territorial e de luxos de políticos, que enriqueciam as dinastias Andhra da Índia e a dinastia Han da China, enquanto deteriorava sua moeda. Em suas últimas décadas, o Império Roma havia centralizado e destruído todas as atividades econômicas do império.
Somada à crise econômica, o Império enfrentou ataques constantes dos bárbaros, visigodos, ostrogodos e hunos. No final do século 4 d.C, o império foi dividido em dois e abriu espaço para-a primeira invasão de Roma por quase 800 anos. Em 476 d.C., o líder de uma tribo germânica, Odoacre, depôs Rômulo Augusto — o último imperador romano (um adolescente) —, assumindo o controle da região e decretando o fim do Império Romano do Ocidente.
A Queda de Roma
Com a queda de Roma, houve o colapso da economia monetária baseada em moedas de metal e dos mercados abertos e livres que havia sido criado há 1.000 anos na Lídia.
A economia que se seguiu, com o início da Idade Média, recusou os sistemas de comércio e troca baseado em moedas e centrou seu desenvolvimento novamente em torno dos grãos, trocas e serviços.
O que aprendemos com a história de Roma é que a tentação dos líderes dos estados nação e impérios de fabricar dinheiro tem sido historicamente irresistível. O resultado evidente desse desatino é a inflação e a queda das econômicas no mundo todo.
Ascensão e Fim do Padrão Ouro
Durante os últimos séculos, assistimos a história de Queda de Roma se repetir inúmeras vezes. Esses eventos nos ensinam que sempre que um governo precisa de dinheiro, ele adota uma dessas 4 opções:
Aumentar impostos
Imprimir dinheiro
Pegar empréstimos
Roubar de outras nações via guerra.
A impressão de dinheiro é a opção que causa menos danos às imagens dos políticos no curto prazo, mas ela é catastrófica no longo prazo. Quando existe uma restrição natural, como o lastro do ouro, o governo precisa se disciplinar e os abusos se tornam mais difíceis. Historicamente o ouro sempre agiu como uma força de controle contra o abuso dos governo. A História dos Estados Unidos nos mostra isso.
O conceito e a tecnologia do papel-moeda já haviam sido criados e utilizados já há bastante tempo. Das notas conversíveis dos banqueiros da Europa aos Mongóis da China. Mas a história do papel-moeda encontrou um solo realmente fértil junto aos americanos e o papel-moeda teve um grande papel no processo de independência das colônias americanas. A Guerra da Independência Americana é conhecida como a primeira guerra a ser financiada com papel-moeda.
Guerra da Independência Americana
A Guerra da Independência dos EUA, ocorrida entre 1775 e 1783, foi um conflito que resultou das tensões entre as Treze Colônias americanas e o Governo Britânico. A insatisfação colonial começou com a imposição de taxas, impostos e leis consideradas injustas. Mas o Congresso Continental -organização representante das Treze Colônias-, não tinha dinheiro para financiar um exército para impor sua reivindicação de independência contra a Grã-Bretanha.
Então, o Continental pegou empréstimos com a França, Espanha e com investidores privados holandeses. Em 1775, eles começaram a emitiram papel-moeda, na forma de letras de crédito, que supostamente estavam lastreadas em ouro e prata, para financiar a Independência. Mas a guerra durou muito mais tempo do que imaginavam.
Em 1789, o Departamento do Tesouro Americano foi criado para gerenciar a emissão de títulos que financiariam a guerra da independência dos EUA.O Primeiro Secretário do Tesouro, Alexander Hamilton, disse na inauguração do Departamento:
"Uma dívida nacional, se não for excessiva, será para nós uma bênção nacional."
Porém, no início de 1781, o Congresso já havia emitido US$ 241 milhões de Continentais (nome das letras de crédito) e cada título estava sendo negociado a uma taxa de 40: 1 dólar de prata. Um ano depois, o valor das notas caiu de 75: 1 dólar de prata. O Congresso não poderia cobrar impostos, já que uma das causas da luta pela independência era exatamente os impostos cobrados pela Grã-Bretanha e a desconfiança nas letras de crédito já começavam eclodir.
O excesso de emissão causou inflação severa, diminuindo o valor real do papel-moeda. A expressão "not worth a Continental" (não vale um Continental) tornou-se comum para descrever algo sem valor.

Após a guerra, para estabilizar a economia e restaurar a confiança na moeda, o governo dos EUA ofereceu trocar os Continentals desvalorizados por novos títulos do governo. Esses títulos geralmente tinham um valor nominal muito inferior ao original dos Continentals, muitas vezes a uma taxa de 100:1 ou mais. Os novos títulos eram geralmente pagos a longo prazo e tinham taxas de juros mais baixas, mas eram mais estáveis e confiáveis do que os Continentals. E ficou por isso mesmo.
Crise de Confiança e o Lastro no Ouro
Após a Guerra da Independência, os delegados da Convenção Constitucional dos Estados Unidos reconheceram os problemas que o uso do papel-moeda havia causado durante o conflito. Embora o papel-moeda emitido pelos Estados Unidos (como os "Continentals") tivesse permitido financiar a guerra, ele também havia sofrido uma desvalorização severa devido à inflação e à falta de confiança. Isso levou a um sentimento generalizado de que o papel-moeda era um "experimento fracassado" dentro do país.
A desconfiança no papel-moeda foi tão profunda que o governo federal dos Estados Unidos praticamente não emitiu papel-moeda de curso legal por quase um século, deixando a circulação de notas a cargo de bancos privados e estaduais até a Guerra Civil. Essa dualidade de percepções levou os delegados dos EUA a estabelecerem, no Artigo I, Seção 10 da Constituição, a proibição explícita de que os estados criassem moeda própria ou aceitassem qualquer coisa que não fosse ouro ou prata como moeda legal para pagamentos de dívidas.
Assim, enquanto internamente prevaleceu a cautela com relação ao papel-moeda, internacionalmente a experiência dos EUA foi vista como um caso de sucesso na adaptação de estratégias econômicas inovadoras para tempos de guerra.
A Lei da Moeda de 1792 (Coinage Act of 1792) foi uma consequência direta da visão estabelecida pelos fundadores dos Estados Unidos em relação à moeda. Após a Constituição proibir os estados de emitir dinheiro e determinar o ouro e a prata como padrões monetários, o Congresso dos Estados Unidos aprovou essa lei para formalizar o sistema monetário nacional.
Pontos principais da Lei da Moeda de 1792:
Estabelecimento do dólar como unidade monetária oficial:
O dólar foi definido como a unidade básica do sistema financeiro dos EUA.
Bimetalismo:
A lei definiu o valor do dólar em termos de peso fixo de ouro e prata: 1 dólar = 371,25 grãos de prata pura ou 24,75 grãos de ouro puro.
Essa proporção entre os metais (15:1) garantia que ambas as moedas pudessem ser usadas como base para transações.
Criação da Casa da Moeda (U.S. Mint):
Foi estabelecida a Casa da Moeda dos Estados Unidos na Filadélfia, que começou a cunhar moedas de ouro, prata e cobre.
Conversibilidade:
A lei garantia que o dólar emitido pudesse ser trocado pelo equivalente em ouro ou prata, consolidando a confiança no sistema monetário.
Essa abordagem, conhecida como padrão bimetálico, foi projetada para trazer estabilidade ao novo sistema econômico dos Estados Unidos, após as dificuldades financeiras enfrentadas durante a Guerra da Independência. A conversibilidade direta em metais preciosos dava credibilidade à moeda, reduzindo o risco de inflação e inspirando confiança, tanto internamente quanto internacionalmente.
Guerra Civil: me pague em ouro e eu te pago algum dia
Porém, o novo padrão encontrou dificuldade de se firmar, quando o governo precisou aumentar seus gastos. Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), o governo dos Estados Unidos enfrentou uma crise financeira devido aos custos enormes associados aos conflitos internos causados pelas visões antagônicas de desenvolvimento entre o Norte e o Sul do país.
Novamente, quando é preciso bancar um exército, os governos precisam ampliar os gastos.
O Secretário do Tesouro do então presidente, Abraham Lincoln, Salmon Portland, recorreu à impressora e emitiu papel-moeda não resgatável em ouro ou prata. Pelo primeiro Legal Tender Act, assinado em 25 de fevereiro de 1862, o governo imprimiu US$ 150 milhões em notas não lastreada em ouro ou prata, conhecida como "greenbacks".

O Ato criou um sistema em que os Estados Unidos exigiam que impostos fossem pagos em moedas de ouro ou prata, mas pagavam os soldados e credores em notas que não tinham qualquer lastro e que seriam pagos em data não especificada no pós guerra e sem juros. Além disso os cidadãos eram obrigados a fazer os empréstimos e a propaganda da época fez todos acreditarem que seriam pagos com uma guerra rápida.
Em menos de quatro meses, o governo publicou o Segundo Legal Tender Act, autorizando a impressão de mais US$ 150 milhões. O Terceiro Legal Tender Act foi aprovado em 3 de março de 1863, autorizando a emissão de mais US$ 150 milhões em dólares. Como sempre, à medida que o governo emitia mais dólares, o valor de cada título declinava.
Após 15 anos do primeiro Legal Tender, os cidadãos do Norte finalmente puderam trocar suas notas por um pequeno valor equivalente em moedas de ouro. O dinheiro das famílias do Sul que bancaram a guerra, nunca foi restituído.
A política monetária durante a Guerra Civil não envolveu deixar o lastro em ouro, mas sim a emissão de moeda não lastreada para financiar os esforços de guerra. Após a guerra, houve um debate considerável sobre como retornar a um sistema monetário mais estável, que eventualmente levou à adoção do padrão ouro de forma mais estruturada na década de 1870.
Em 1873, através do Coinage Act, descontinuou-se o sistema bimetálico, abandonando a prata e movendo o país para o padrão ouro novamente.
A Grande Depressão e o Confisco do Ouro
Décadas depois, em meio à turbulência econômica da Grande Depressão, os Estados Unidos enfrentaram mais uma reviravolta no sistema monetário. Em abril de 1933, o presidente Franklin Roosevelt publicou a Ordem Executiva 6102 como resposta às dificuldades econômicas enfrentadas pelo país.
A Ordem Executiva 6102 proibiu a posse individual de ouro, obrigando os cidadãos a entregarem seu ouro ao Banco Central. Nesse momento, os Estados Unidos tornaram a posse de ouro ilegal para a população, embora o padrão ouro-dólar tenha sido mantido para transações internacionais e bancos estrangeiros. Segundo Roosevelt, a medida era necessária porque "a acumulação de ouro paralisava o crescimento econômico e piorava a depressão.”
Todos foram obrigados a vender seu ouro ao governo a uma taxa fixa e estipulada por ele mesmo, de US$20,67 por onça-troy. Em 30 de janeiro de 1934, menos de um anos depois, Roosevelt assinou o Gold Reserve Act, que estabelecia que o Presidente poderia decidir por decreto o valor do dólar em ouro. Durante o governo Roosevelt, o governo federal confiscou cerca de 5 milhões de onças de ouro – oficialmente no valor de cerca de US$ 1,6 bilhão em barras de ouro.
O governo então aumentou a taxa de ouro por dólar, para US$35 por orça-troy. Assim, todos que cumpriram a lei e trocaram ouro por papel perderam 40% do seu dinheiro. Durante 40 anos, a posse do ouro foi criminalizada. A mudança no preço oficial do ouro aumentou o valor nominal do tesouro de ouro do governo e, assim, permitiu que ele emitisse US$ 3 bilhões adicionais em papel-moeda.
Pouco tempo após a nacionalização do ouro, o presidente Roosevelt aprovou outra lei nacionalizando a prata da mesma maneira.
Sistema Bretton Woods
Em julho de 1944, os Estados Unidos convocaram uma conferência para reorganizar a geopolítica do mundo e evitar uma nova Guerra, inflação e depressão global. A conferencia tinha como objetivo definir qual seria a ordem econômica e monetária do mundo.
Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e os países da Europa Ocidental, assinaram o Acordo de Bretton Woods, estabelecendo as regras para as relações comerciais entre os países. A grande exigência do acordo era que todos os aliados garantiriam a conversibilidade de suas moedas em dólares americanos, sendo o dólar conversível em barras de ouro. Entre 1944 e 1960, os aliados trabalharam juntos para manter o dólar fixado em US$ 35 por onça troy de ouro.
Guerra Fria e o Fim do Padrão Ouro
Após o final da Primeira Guerra Mundial, a Rússia emergiu como grande potência. Em 1947, o então presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, solicitou verbas para conter o avanço do comunismo e reestruturar as economias. A primeira ação dessa doutrina foi o Programa de Recuperação Europeia, conhecido como Plano Marshall, concedendo empréstimos a juros baixos para ajudar a reconstrução da Europa e impedir a expansão do socialismo. A ajuda econômica oferecida pelos americanos é estimada entre $12 e 14 bilhões de dólares na época.
Em 1949 os Estados Unidos, o Canadá, e os países da Europa ocidental, criaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma aliança militar criada para funcionar como um sistema de defesa coletiva, no qual os 31 Estados-membros concordam com uma defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa à organização.
Apesar de nunca ter existido um conflito direto entre americanos e soviéticos, o embate foi marcado por inúmeros episódios de tensão marcaram o período da Guerra Fria, em que os Estados Unidos bancavam a guerra dos seus aliados por todo o mundo.
Com o passar dos anos, os Estados Unidos encontrava cada vez mais dificuldade para conseguir dinheiro para a guerra. O conflito se tornava cada vez mais impopular entre os cidadãos americanos e o Congresso não aceitava aumentar os impostos para bancar a guerra. Sem poder imprimir dinheiro devido às amarras do acordo de Bretton Woods, os presidentes recorreram a empréstimos, que aumentavam a oferta de dinheiro e aumentava a inflação do país.
O Presidente Lyndon Johnson encorajou os políticos a acumular mais dívidas para lutar na guerra do Vietnã, enquanto empobrece o próprio país. Em vez de reverter as políticas, o próximo presidente, Richard Nixon anunciou um conjunto de medidas econômicas que trouxe uma grande estagflação para os americanos na década de 70.
Fim do Padrão Ouro
No final da década de 60, a quantidade de dólares era superior às reservas de ouro do país. Os EUA não poderia mais cumprir suas obrigações de troca de dólares por ouro. Em agosto de 1971, Nixon anunciou a suspensão da conversibilidade do dólar em ouro, o congelamento compulsório por 90 dias de preços, salários e aluguéis para combater a inflação e a sobretaxa de 10% sobre as importações, com o objetivo de melhorar a balança comercial americana.
Todos os grandes centros econômicos capitalistas reagiram em pânico e as bolsas de valores derreteram. Os Estados Unidos venceram a Guerra contra a União Soviética e saiu como potência vencedora, mas o fim do Sistema Bretton Woods encerou a era de estabilidade do dólar e marcou o inicio do aumento exponencial do valor do ouro em relação às moedas fiduciárias.
Durante os anos 70 e 80, o valor do dólar despencou. E as notas conversíveis em ouro e dólar com os dizeres '' Certificado Prata: certifica que existe depósito no tesouro dos Estados Unidos da América'' deu lugar aos dizeres '' In God We Trust'', inaugurando a Era das Hiper-inflações.

Livro indicado
The History of Money: From Sandstone to Cyberspace


