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Computação Quântica e o Bitcoin: Entendendo as Ameaças e as Soluções Pós-Quânticas

Entenda como os avanços da computação quântica e novos estudos do Google impactam a criptografia do Bitcoin, quais carteiras estão em risco e as soluções pós-quânticas em debate.

Rafaela Romano
Escrito por

Rafaela Romano

Ex-Editora-chefe do CointelegraphBR, Eleita TOP educadora Bitcoin pelo Livecoins.

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Neste exato momento, bilhões de dólares estão sendo investidos no desenvolvimento de computadores quânticos. Essas máquinas do futuro serão capazes de realizar cálculos complexos em questão de minutos, resolvendo problemas matemáticos que os supercomputadores tradicionais mais avançados da atualidade levariam bilhões de anos para executar.

No mundo digital clássico, a informação é processada em bits estáticos, representados de forma binária por 0 ou 1 (como uma lâmpada que está apenas acessa ou apagada, ou uma moeda que cai em cara ou coroa). Essa arquitetura limita o processamento a um cálculo sequencial por vez.

A computação quântica subverte completamente essas regras. Operando por meio de qubits, as partículas assumem estados probabilísticos múltiplos através do fenômeno da superposição, representando 0, 1 e ambos simultaneamente. É como se a moeda lançada continuasse girando no ar infinitamente, fazendo com que todas as possibilidades sejam válidas ao mesmo tempo. Com essa dinâmica, o que antes era matematicamente impossível torna-se perigosamente realizável.

O Alerta do Google e a Aceleração do Cronograma

O grande divisor de águas que acendeu o sinal de alerta máximo na comunidade técnica ocorreu com a publicação de um estudo do braço de computação quântica e IA do Google. Até então, a estimativa padrão da indústria para quebrar o Algoritmo de Assinatura Digital de Curva Elíptica (ECDSA) de 256 bits, a criptografia que protege as chaves privadas do Bitcoin, estipulava a necessidade de um maquinário colossal, contendo entre 10 e 20 milhões de qubits físicos e cerca de 2.500 qubits lógicos (os "super-qubits" responsáveis pela correção de erros).

O novo whitepaper do Google, contudo, otimizou drasticamente os algoritmos de correção de erros em códigos de superfície. A nova projeção matemática reduziu os requisitos necessários para resolver o problema do logaritmo discreto (ECDLP) para apenas 500 mil qubits físicos e 1.400 qubits lógicos. Uma redução drástica de quase 20 vezes em relação às métricas anteriores.

Estimativa Antiga: 10 a 20 Milhões de Qubits Físicos 
Nova Projeção (Google): 500 Mil Qubits Físicos 
➔ Queda de 20x nos recursos necessários! 

Embora os maiores processadores quânticos físicos atuais (como os chips da IBM e Atom) tenham atingido recentemente a marca de 1.000 qubits físicos, e os qubits lógicos de alta precisão ainda operem na escala de dezenas (entre 24 e 50 qubits), a velocidade de evolução está acelerando de forma imprevista. A IBM anunciou um aporte massivo de bilhões para o desenvolvimento dessa tecnologia.

O status do debate mudou tão drasticamente que, no início de 2026, as discussões técnicas sobre o risco quântico na lista de e-mails (mailing list) do Bitcoin superaram o acumulado de todos os anos anteriores somados.

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Além disso, agências governamentais como a CISA (EUA) passaram a exigir em janeiro de 2026 que qualquer nova aquisição de software ou hardware para infraestruturas críticas já venha integrada com algoritmos pós-quânticos, consolidando o consenso de que o período entre 2030 e 2035 é o deadline global para a migração de sistemas de segurança.

O que Está (e o que NÃO Está) em Risco no Bitcoin com Computadores Quânticos

Muitas pessoas acreditam que a computação quântica destruirá todo o protocolo do Bitcoin de maneira uniforme. Mas isso não é verdade. O risco quântico diz respeito a um aspecto especifico.

  • Imunes ao Ataque: O consenso da rede, o cronograma de emissão monetária, o teto de 21 milhões de unidades e a própria atividade de mineração não correm riscos sistêmicos com um computador quântico.

  • Vulnerabilidade Real: A ameaça reside estritamente no uso do Algoritmo de Shor, que pode descriptografar e derivar uma chave privada a partir de uma chave pública exposta na blockchain, permitindo o roubo direcionado de moedas. É apenas a derivação da chave privada a partir da chave pública que é o grande risco.

A diferença entre Chave Pública e Endereço

O ponto crucial aqui é: a chave pública não é o seu endereço de recebimento. O endereço que você compartilha publicamente é o resultado de um duplo hash (SHA-256 + RIPEMD-160) da sua chave pública. O computador quântico não consegue descriptografar esse hash; ele precisa que a chave pública bruta esteja visível na rede.

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A chave pública é revelada na blockchain em duas situações:

  • Por Padrão do Script: Formatos de endereços mais antigos, como o P2PK (utilizado por Satoshi Nakamoto no início da rede), e o padrão mais recente P2TR (Taproot) expõem a chave pública nativamente.

  • Ao Gastar Fundos: Em carteiras padrão, a chave pública só é revelada ao mundo quando você assina uma transação para retirar fundos daquele endereço.

Se o usuário pratica a reutilização de endereços (enviar novos depósitos para um endereço de onde já realizou saques no passado), a sua chave pública estará exposta e com saldo disponível, tornando-o completamente vulnerável ao ataque quântico de longo alcance. Estima-se que cerca de 6,9 milhões de Bitcoins (34,62% do suprimento circulante) estejam suscetíveis a esse ataque por estarem em endereços com chaves públicas já expostas.

Os Dois Vetores de Ataque Quântico

Para entender como se proteger, o investidor precisa compreender a mecânica de exposição das chaves na rede, que se divide em dois formatos de ataque:

1. Ataque de Longo Alcance (Long-Range Attack)

Ocorre quando o computador quântico possui tempo ilimitado para processar os dados e derivar a chave privada de fundos que estão parados na blockchain e cujas chaves públicas foram expostas.

2. Ataque de Curto Alcance (On-Spend / Short-Range Attack)

Esta é a descoberta mais alarmante trazida pelas arquiteturas quânticas de silício, fotônicas e supercondutoras (que possuem ciclos de correção de erros ultra-rápidos). Esse vetor aponta que um computador quântico de alta performance seria capaz de interceptar uma transação legítima no exato momento em que ela é assinada e enviada para a mempool (onde a chave pública é obrigatoriamente revelada).

No intervalo de aproximadamente 10 minutos antes de o bloco ser minerado, a máquina quântica quebraria a chave privada, geraria uma transação fraudulenta concorrente com uma taxa de rede maior (Replace-By-Fee) e desviaria os fundos para si, alterando o destino antes do registro final na blockchain. Nesse caso, todos os tipos de carteira estariam em risco, não apenas aquelas cujas chaves publicas foram expostas.

Como se Proteger Desde Já: Ação Prática de OpSec

Para mitigar 100% o risco de ataques de longo alcance no cenário atual, o protocolo operacional é simples e focado em boas práticas de privacidade:

  1. Gere Sempre Novos Endereços: Configure sua carteira para nunca reutilizar endereços. Sempre que realizar um envio, certifique-se de que a sua carteira destrói os UTXOs antigos e destina o troco (change) automaticamente para um endereço inédito, cuja chave pública permanece oculta sob a barreira inviolável do hash.

  2. Escolha Scripts Seguros por Ocultação: Boas carteiras de mercado permitem que você selecione o formato do script de destino ao gerar a sua carteira. Para garantir que a sua chave pública permaneça completamente oculta atrás da barreira inviolável do hash duplo até o exato momento do gasto, priorize a criação de contas nos padrões de assinatura única nativos:

    • P2WPKH (SegWit Nativo): É o padrão ouro atual de eficiência e segurança quântica de longo alcance. Gera endereços que começam com bc1q e mantém a chave pública sob a proteção de hashes até que você assine uma transferência.

    • P2PKH (Legacy): O formato antigo do Bitcoin (endereços que começam com 1). Embora menos eficiente em taxas de rede que o SegWit, ele também protege a chave pública por meio do duplo hash (SHA256 + RIPEMD160) até o momento do gasto.

    ⚠️ Atenção Criptográfica sobre o P2SH: O padrão P2SH (Pay-to-Script-Hash), que gera endereços começando com 3, funciona como um "envelope" criptográfico para scripts complexos, sendo a base das carteiras Multisig tradicionais. O perigo oculto reside no fato de que, ao gastar apenas uma fração (UTXO) de uma carteira Multisig envelopada em P2SH, o script inteiro é revelado na blockchain. Isso significa que as chaves públicas de todos os dispositivos do quórum são expostas de uma só vez. Se você reutilizar essas chaves em outras UTXOs com saldo dentro do mesmo cofre, elas se tornarão alvos instantâneos do ataque quântico de longo alcance.

O Dilema de Satoshi e os Desafios de Governança

Mudar o algoritmo de assinatura do Bitcoin para uma criptografia pós-quântica (PQC) é viável tecnicamente, mas esbarra em um profundo dilema filosófico e operacional: O que fazer com os Bitcoins inativos de Satoshi Nakamoto?

Dos mais de 6 milhões de moedas vulneráveis ao ataque de longo alcance, pelo menos 1 milhão de BTC pertence ao criador anônimo da rede. Como Satoshi não está presente para assinar uma transação de migração para um novo par de chaves pós-quânticas, a comunidade enfrenta um racha de opiniões:

  • Deve-se permitir que o primeiro grupo ou governo a construir um computador quântico funcional confisque essas moedas na blockchain?

  • Ou a rede deve aplicar um soft fork para "congelar" ou queimar esses ativos de forma impositiva, adotando uma postura centralizadora semelhante às intervenções estatais do sistema fiat?

Propostas intermediárias, como o conceito de Hourglass, sugerem a criação de um calendário regressivo de desbloqueio para moedas antigas inativas, garantindo uma janela temporal para que holders legítimos reapareçam e reivindiquem seus fundos antes de uma restrição quântica definitiva.

Estrategicamente, o tempo joga contra a inércia. Estimativas analíticas apontam que a rede levaria cerca de 156 dias de processamento ininterrupto apenas para migrar os saldos expostos atuais e, em um cenário de transição total de rede, o processo de coordenação exigiria mais de 1 ano de execução. Como base de comparação histórica, a ativação do SegWit (BIP 141) — que foi um processo muito menos complexo e que não exigiu nenhuma migração de fundos pelos usuários — levou 21 meses desde a sua apresentação pública até a sua consolidação em código. Portanto, a rede do Bitcoin precisa iniciar a consolidação do consenso pelo menos três anos antes que a ameaça quântica comercial ganhe as ruas.

Os Caminhos Técnicos para o Bitcoin Pós-Quântico

No horizonte do desenvolvimento de softwares, já existem duas grandes classes de assinaturas pós-quânticas amplamente estudadas e com testes práticos em andamento no ecossistema do Bitcoin:

1. Assinaturas Baseadas em Reticulados (Lattice-Based)

Apresentam como grande trunfo o fato de serem altamente compactas, reduzindo drasticamente o peso de dados transmitidos na rede. O algoritmo padrão de referência global nesta categoria é o ML-DSA (Module-Lattice-Based Digital Signature Standard). Contudo, por ser uma matemática computacional mais recente, ela ainda é menos explorada em termos de testes de estresse em sidechains.

2. Assinaturas Baseadas em Hashes

São estruturas matemáticas velhas conhecidas e amplamente testadas no ecossistema de criptoativos. A grande desvantagem reside no tamanho físico das assinaturas, que introduzem problemas de sobrecarga no tamanho dos blocos da blockchain e elevam os custos de taxas de transação.

O grande destaque global nesta categoria é o algoritmo SPHINCS+ (SLH-DSA), oficializado pelo NIST como o padrão mundial de segurança pós-quântica. O SPHINCS+ tornou-se a âncora de confiança de governos para blindar segredos de Estado contra táticas de espionagem do tipo "capture agora, descriptografe depois".

No ambiente real do Bitcoin, assinaturas pós-quânticas já deixaram de ser teoria: em março de 2026, a Blockstream Research implementou com sucesso um verificador SPHINCS dentro da sidechain Liquid. O grande desafio dessas propostas é encontrar assinaturas pós-quânticas que preservem a estrutura algébrica necessária para manter a programabilidade moderna da rede. Sem esse cuidado, avanços vitais como o próprio P2TR (Taproot), a Lightning Network e os Silent Payments (pagamentos silenciosos que evitam a reutilização de endereços) poderiam ser severamente prejudicados ou invalidados na transição para a era quântica.

A boa notícia é que sidechains experimentais, como Anduro e qBTC, funcionam hoje como laboratórios vivos para testes de Propostas de Melhoria do Bitcoin (BIPs), simulando fluxos de migração e analisando alternativas para mitigar o custo dos blocos sem quebrar ferramentas de programabilidade do protocolo (como Taproot, Lightning Network e Silent Payments).

Para saber mais, assista o vídeo abaixo:

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